Severino Almeida Vieira e Myriam Rodrigues Vieira

Estamos aqui contando a história de nossas vidas, vívidas sob as asas de um beija-flor chamado Floripes(flor de ipê) Dornelas de Jesus, a nossa querida Madrinha Lola. Não sabemos de outra maneira melhor para agradecer ao Sagrado Coração de Jesus vida tão plena. Esperamos que a nossa história sirva de estímulo a muitos e muitos jovens a procurarem um relacionamento concreto com as verdades da nossa fé para tirarem o maior proveito possível de todas as promessas feitas pelo Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria, o que norteou a vida de nossa Madrinha Lola e "por tabela" a nossa, passada em grande parte junto dela.
Procuramos contar a nossa vida como se fosse um romance, ou uma novela, para ficar mais agradável de ser lida e contada. Mas é a história da nossa vida. Tudo isso é a mais genuína verdade que vivemos e passamos junto à madrinha Lola, e depois da sua partida.
Depois de lê-Ia, responda-nos: Pode existir vida mais plena e rica do que a nossa?
Seis horas da manhã num dia qualquer da semana. O friozinho de abril já começava, era o ano de 1960. Na igreja começa a Santa Missa. Grande número dos avós de Rio Pomba está colocando no altar do Senhor todos os seus filhos, netos e bisnetos com seus anseios e necessidades. Muitos trabalhadores e donas de casa estão recebendo sua "ração de vida" com a qual irão passar todo o dia. Nesta ração se encontra tudo o que um cristão(ã) pode necessitar para agir cristãmente no cumprimento dos seus deveres de estado e profissionais. É também responsável pela simplicidade e naturalidade que faz a alegria brotar espontaneamente "de vez em sempre".
Entre essas pessoas está dona (...), apelido dado à senhora (...), zeladora do Apostolado da Oração. Hoje ela traz um assunto especial para o Coração de Jesus: Seu filho Severino, conheceu uma prima em Cataguases, e parece que um sentimento forte aconteceu entre eles. Seria muito simples e maravilhoso se ambos não fossem já comprometidos, além de Myriam, ser adepta de outra religião.
Logo depois do almoço, que acontecia bem cedo nesse lugar e nesse tempo, ela foi procurar sua amiga Lola; certamente o Coração de Jesus lhe daria um a orientação através da Lola!
Todos na cidade conheciam a Lola. Ninguém achava nada demais o fato dela não comer e não beber nada e nunca, a não ser a Sagrada Eucaristia. O povo muito cristão e muito devoto compreendia muitíssimo bem o milagre acontecido com Lola que, por volta dos seus 18 anos caiu de um pé de jabuticaba, vindo a ficar paralítica; mas só do corpo porque era dotada de uma alma de rara agilidade nos assuntos da fé e da verdadeira caridade cristã. Um grande grupo de senhoras da cidade fez uma novena ininterrupta ao Sagrado Coração de Jesus, no quarto dela, dia e noite elas se revezavam em orações de louvores e desagravo. Ao final todas elas assinaram um documento enviado ao senhor Arcebispo, (...), em Mariana, atestando que em nenhum momento ela tomou algum alimento, ou bebeu água, ou mesmo dormiu. O que para um povo rico em espírito não era nada de mais era um povo acostumado a não colocar limites no poder de Deus.
O povo de Rio Pomba, era muitíssimo rico de vida espiritual. Seu único sacerdote, padre Gladstone Batista Gallo tinha grande interesse no progresso espiritual do seu rebanho. Dava total apoio às irmandades. Cada pessoa escolhia aquela a que tinha mais afinidades: havia a Pia União das Filhas de Maria, para as moças, os Congregados Marianos para os homens e rapazes, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, a Irmandade de Santa Zita, a Irmandade dos Santos Anjos e da Cruzada Eucarística para as crianças e adolescentes. Mas além de fazer parte de uma dessas irmandades, a maioria das pessoas pertenciam ao Apostolado da Oração.
Cada irmandade tinha uma espiritualidade própria, e nas reuniões, geralmente semanais, as pessoas aprofundavam seus conhecimentos espirituais e de doutrina. E nas missas dominicais eram intermináveis as filas da comunhão, cada irmandade comungava junta cada qual com sua fita ou também com o uniforme.
Toda primeira quinta feira era dia de confissão. Ninguém perdia. Padre Gallo entrava pela madrugada a dentro, atendendo atenciosamente a cada alma. Sempre algum padre vinha de fora para ajudá-Io.
Aos sábados o sino da igreja batia alegremente às 3 horas da tarde chamando as crianças para o catecismo. Era uma festa. Logo o jardim da praça estava repleto de crianças, jogando bola, pulando corda até a Madre Catarina tocar o sino de mão. Aí todos se reuniam na igreja, cantavam o Credo a todo pulmão para em seguida acompanhar sua catequistas que a cada sábado apresentava um um lindo cartaz com uma passagem da Sagrada Escritura. Tema do assunto do dia.
Todo o ano Iitúrgico era intensamente vivido. Em maio, todas as noites havia "reza" que era culminada com a coroação de Nossa Senhora pelas meninas. Junho era o mês do Coração de Jesus e os meninos, vestidos de príncipes, ofereciam ao Coração de Jesus seus pequeninos corações. Depois havia foguetes, banda de música e barraquinhas, quermesses! Junho era maravilhoso! Duas lindas procissões serpenteavam pelas ruas da cidade cujas janelas estavam enfeitadas com as mais lindas toalhas, flores e castiçais: a de São Manoel, o querido padroeiro e a do Sagrado Coração de Jesus.
Na quaresma, todas as quartas e sextas rezava-se a solenemente a Via Sacra, toda cantada. Os corações eram aos poucos recolhidos, para o grande retiro coletivo da Semana Santa. Quando o Domingo de Ramos chegava, a cidade estava cheia. Muitas pessoas que residiam nas fazendas, nos sítios, alugavam casas na cidade para participarem efetivamente das Iiturgias que todos os anos contava com grande número de sacerdotes que vinham às vezes de longe e pregavam com grande entusiasmo os mistérios da nossa fé.
Como pano de fundo, sentindo e participando de todos esses acontecimentos estava Lola, a cerca de dois quilômetros da cidade, recostada no seu catre, confeccionando flores miúdas para enfeitar algum altar, ou fita do Apostolado da Oração. Seu espírito, extremamente vivo, dava conta de tudo; muitíssimo mais do que a maioria das pessoas podiam perceber.
A caminhada até o sítio da Lola durava mais ou menos meia hora, podiase ir de táxi com o (...) ou com o (...), mas hoje dona (...) preferiu ir a pé. Queria ir rezando, preparando com o Coração de Jesus a sua conversa com Lola. Logo, logo chegou ao Lindo Vale, local do sítio onde Lola morava com sua irmã Dorvina, depois da morte dos pais. Da porteira da propriedade ainda precisava andar quase meio quilômetro até a casa. Muitas vezes esse caminho estava cheio de gente que vinha de todos os lugares para pedir as suas orações, seus conselhos e orientações. Padre Gallo fez um livro de visitas, onde se anotava os nomes e lugares das pessoas a quem Lola atendia. Já tem vários livros cheios! Dorvina faz milagres para servir café e bolo. O pessoal da cidade ajuda.
O Coração de Jesus sempre manda umas pessoas para auxiliar a Lola no seu ministério, nesses tempos tem a (...), ocasal (...), a (...) e outras.
Dona (...) chegou à casa, ela não precisa ficar na fila, ela é de casa, amiga de Lola desde a mocidade,cúmplices no amor ao Coração de Jesus.
- Lola, me ajude, não sei como agir nessa situação: O Severino conheceu uma sobrinha minha em Cataguases, e tenho certeza de que eles estão gostando um do outro. Você sabe que ele é comprometido, ela também é; e, o que é pior, ela é de outra religião!
- Calma (...), meu coração sente que não é para se alarmar. O Coração de Jesus está vendo o que nós não podemos ver. Toda a sua vida tem sido a serviço dEle e certamente Ele quer para o seu filho algum serviço especial. Por isso deve passar por esses momentos que se mostram difíceis.
- O que você acha que eu devo fazer?
- Convide essa moça, como é o nome dela?
- Myriam.
- Ah! Ela pode ser de outra religião, mas tem o nome de Nossa Senhora.
Convide a Myriam para vir aqui. Quero muito conhecê-Ia ..
Não era bem isso que Dona (...) esperava, naquele tempo, naquele lugar eram muito poucas as pessoas de outra religião. O universo de dona (...) era católico. Mas do jeito que Lola falou, com certeza era isso que o Coração de Jesus queria. Não tardou em providenciar a vinda de Myriam a Rio Pomba; não viu nela nenhuma resistência em fazer uma visita à Lola, cuja fama de santidade atingia toda região. Embora fosse de outra religião, Myriam demonstrou desejo de conhecer Lola.
Cataguases é uma cidade muito desenvolvida e moderna para os padrões da região, tem uma grande vocação para as artes encontram-se lá diversas obras de arte dos artistas do movimento modernista do início do século, obras no estilo da Pampulha, em Belo Horizonte. Foi lá que Myriam nasceu e cresceu. Assimilou assim aquele sopro de modernidade, adquirindo a consciência de que o que é novo não significa que seja ruim, o preconceito não faz parte de sua personalidade de aguçada inteligência que lhe permite discernir algo bom, e por ele optar mesmo que camuflado por costumes de criação.
Myriam foi-se encontrar com Lola sem nenhum espírito de reserva. O novo, o misterioso a atraía como é natural numa jovem inteligente e perspicaz. Ao chegar foi envolvida pela atmosfera de santidade que rodeava o ambiente. Como boa cristã sentiu que aquilo vinha de Deus e seu coração tornava-se cada vez mais leve. A visão daquela mulher recostada naquele catre, sem quase conforto, contrastava com a idéia de conforto e paz daquela senhora de aspecto firme e ao mesmo tempo tão suave.
A conversa, como convém aos simples, logo após a apresentação e praxes
foi logo entrando no assunto religião:
- Qual é a sua religião? Perguntou Lola.
- (...) respondeu Myriam.
- Explique para mim filha, como é essa religião? O que ela prega, o que ela
ensina?
- Prega, e ensina a viver segundo a Bíblia, a sermos bons segundo os olhos de Deus vivendo os ensinamentos de Jesus Cristo, no seu evangelho.
-Que maravilha, a sua religião tem tudo a ver com a nossa, a católica. Aliás filha, todas as religiões evangélicas são galhos da árvore do catolicismo que foram replantados como mudas. Adquiriram vida própria e se desenvolveram e prosperaram como não poderia deixar de ser, pois são frutos da semente da Verdade plantada por Nosso Senhor Jesus Cristo.
- Penso que tia Neném não pensa assim, e se Severino e eu viermos a nos casar ela ficaria muito triste por eu não seguir os costumes religiosos dela e sua família.
- Olhe a sua religião crê na Bíblia e seus ensinamentos. Você sabe então que Deus é Todo Poderoso e que pode chamar uma pessoa, escolhida por Ele para servi-lo numa situação nem sempre esperada. Se você se converter ao catolicismo, não estará, de maneira nenhuma, contrariando os princípios da religião da sua família porque todos eles vieram da Sagrada Escritura dada por Deus à Igreja Católica. Na Igreja Católica você encontrará tudo o que você tem na sua, além de muitas outras riquezas espirituais, porque ela é bem mais antiga e, portanto com uma herança maior, deixada por incontável número de santos que viveram ao longo desses quase dois mil anos. Você pode muito bem conservar todos os seus valores e adquirir outros; se realmente gostar de Severino e estiver disposta a percorrer o caminho da Verdade à maneira e costumes da família do rapaz que Deus escolheu para ser seu esposo.
Essas palavras soaram como música aos ouvidos de Myriam.
Começou-se então a catequese de Myriam pela própria Lola e, no dia 26 de maio de 1960, aos 22 anos, no próprio quarto-oratório foi batizada e fez a primeira comunhão. Teve como padrinho o Coração de Jesus representado pelo padre Gallo, como madrinha, Lola e Dorvina como madrinha de consagração Nossa Senhora. Mais tarde, Dorvina seria de crisma. Myriam estava toda vestida de branco, a vela foi cuidadosamente ornamentada . por Lola que talentosa na arte das flores pequeninas.
Depois de dois anos como freqüentadora assídua da casa da madrinha Lola, para alegria da tia (...), Myriam e Severino se casam em Cataguases. Para esse acontecimento Myriam ganhou da madrinha Lola um lindo vestido de renda guipir além do lido bouquet de flores pequeninas feitas por ela mesma. Mas o que mais ela achava importante era o fato da madrinha Dorvina ir assistir à cerimônia em Cataguases, com um recado de Lola: se por acaso lá vissem um beija-flor, era ela que estaria lá. Como de fato aconteceu.
Quando voltaram para Rio Pomba, onde já ·tinham casa arrumada, foram primeiro à casa de Lola. Myriam vestiu novamente o vestido para que a madrinha a visse. Foi um dia maravilhoso.
Surpresa linda mesmo foi quando chegaram pela primeira vez ao novo lar: lá havia um outro presente. de Lola: um oratório da Sagrado coração de Jesus, ladeado por duas cestinhas trançadas; além de duas jarras brancas com pombinhos em alto relevo e cheias de cravos brancos, tudo confeccionado por ela.


Rio Pomba, março de 2006