Carolina Soares Coutinho
Convivi muitos anos com Lola (Floripes Dornelas de Jesus), nós brincávamos, já mocinhas grandes, brincávamos naqueles pés de goiaba, como ríamos! Mamãe gostava muito dela, demais da conta, sabe? A recepção de Fitas de Filhas de Maria foi com o Padre Cícero, ele é quem deu para nós a fita na Matriz de São Miguel. Este retrato em cima da mesa foi tirado em 08/05/1933, na Igreja Matriz de São Manoel de Rio Pomba. Nesta época, depois que ela recebeu a fita, não aproveitou nada, logo depois ela caiu, foi um ano só de filha de Maria. Ela era muito correta n Igreja, gente! Meu Deus do Céu! Ela era muito boa. Depois do acidente eu e a (...) fomos lá e não achei que fosse tão grave, achei que ela ia sarar. Depois veio a romaria, que coisa horrorosa! Tive que ficar com ela uma semana, inteirinha, ela não me deixava ir embora, só depois de 7:00 horas da noite. Eu e o (...), ficávamos na porta, meu Deus do Céu, coitadinha da Lola! Ela não sabia o que fazia. Eu falava assim com o povo: “vai devagar gente, ela está doente”. Ela conversava com o povo, falava assim: "Seja bendito, Coração de Jesus, que traz e que leva”. Eu até me arrepio; na hora que ela começava a falar, nossa... os irmãos dela: (...), ficaram na casa, na época a mãe dela era viva e viúva. O Pai dela era muito amigo do Papai, nesta época ele já tinha morrido, até quando ela recebeu a fita de Maria ele já havia morrido. Dos irmãos casados, não tomei conhecimento não, cala a boca minha filha! Estou com 88 anos de idade, não lembro de muita coisa não. O irmão que morreu quando criança, chamava (....), trabalhava na chácara, trabalhava para ela e o (...) também trabalhava pra ela. Na época do Apostulado da Oração, quem ia para a Vigia, era (...), muita gente ia lá, dia e noite. O vigário era o Padre Gallo. Mas depois ela proibiu a noite. Mas aqui, antes dela morrer, veio um senhor de São Paulo; dois e queriam uma entrevista minha com ela e eu dei; não sei se falaram com ela, eles falaram que ia sair no jornal e não vi isso no jornal. Foi muito antes dela ficar ruim (de saúde). No início ela recebia, mas estava cansada. O padre e o médico proibiram visitas, disse: “Não , a senhora não pode com isto.” Depois o meu sobrinho foi o médico dela, o (...), depois que ela morreu, ele veio almoçar aqui em casa, chorou coitado! Minha sobrinha alcançou um graça, (...), mas isto eu não falei com o jornalista que veio não, porque ela ainda não tinha dado o grito, não é? Ela pediu que eu falasse com a Lola. No telefone, ela (...) me disse: - Eu, tia Carolina, estou com uma dor de cabeça horrorosa, o médico tirou uma radiografia e disse que era um tumor na cabeça, dizendo que não podia falar se era benigno ou maligno, ainda mais que estava mais para maligno. A coitadinha no telefone chorou e disse: - “Tia Carolina, vai na Lola.” Então telefonei para o (...) e ele então passou aqui, queria que ele levasse o recado pra Lola, pois ela não recebia mais, mas ele disse que ela mesma pediu que quando eu quisesse era pra ele me levar lá. Fomos, mas eu não sabia que ela (...) estava chegando em minha casa, logo que o (...) chegou. Então eu conversava com Lola que por sinal não via a quarenta anos (depois que fechou) e ela (Lola) disse: - “filha de (...)! Pode dizer para ela, não vai morrer, ela vai servir muito aos filhos dela. Fala com ela que na hora em que ela for embora, vai pedindo assim: “Sagrado Coração de Jesus da Lola que me sara”. Ao sair de casa até chegar em Juiz de Fora, ela foi rezando. O médico mandou ela fazer outra radiografia e ela disse que a dor de cabeça tinha passado, melhorado muito, aí ele ficou parado e disse: - “conta uma coisa, você foi em outro médico?”. E ela Disse: - ”não meu médico é o senhor”; doutor”. (não, não era médico, era médica; doutora). - Tomou algum chá que alguém receitou? - Não tomei não, porque está falando nisto? - É porque você não tem mais nada na cabeça. Ela não sabia, se ria ou chorava e disse: - Coração de Jesus que acaba de me valer. A médica falou: - Calma, minha filha e deu-lhe um calmante. Agora, disse a doutora, quero saber o que foi que você arrumou? - Eu vou contar para a senhora, é uma graça muito grande que eu alcancei com uma moça solteira, já de idade (Lola) mora em Rio Pomba. - Quero ir lá na casa dela. Disse a médica. - Eu vou contar para a senhora (é uma graça muito grande que alcancei), mas detalhes eu não sei, porque não estou acostumada a ir lá na casa dela.
É que o nome dessa médica, que cuidou da (...), eu não sei, mas posso procurar saber. Hoje minha sobrinha é muito feliz, ela e todas as irmãs dela, vieram no enterro de Lola, agradecer. Quando me contou que estava doente assim, tive muita pena dela, mas Lola valeu, ela dava uma certeza e a gente tinha certeza também. Muita gente, perguntava se Lola era vaidosa e passava papel vermelho no rosto, nunca vi, usava simplesmente um perfume, suave, limpinha. Perfumosa, mas não era vaidosa. Quando tinha 24 anos, fiquei viúva e Lola me chamava e dizia que eu precisava rezar. Eu e o (...) fomos namorados, antes de casar, depois eu casei com um e ele casou com outra, mas ele também havia ficado viúvo e me mandava recados. Minha mãe achava que eu devia casar novamente e Lola achou muito bom também (Havia ficado viúvo e me mandava recados) e ela exigiu que o meu casamento fosse altar do Sagrado Coração de Jesus. Na véspera do meu casamento, eu fui lá e disse: - vou me casar amanhã. E ela respondeu: - Deus o conserva, a (...) morreu, podia estar aqui até hoje, mas tem você, você vai casar, não deixa de vir a minha casa, quero ver você. A minha vida com Lola, foi uma vida muito bonita. Na época da primeira reportagem, eu já tinha casado pela primeira vez e ela ainda recebia as pessoas com hora marcada. Eu tinha vontade de levar para Lola, o suco de alguma coisa para ela tomar, mas ela nunca tomou. O pé de jabuticaba, acabou. Ela dizia para mim, (quando eu ia embora) não vai agora, não, Carolina; tem muita gente aí. Na época, ela recebia gente de muito longe, Nossa Senhora! Ela teve no balão de oxigênio e você sabe o que ela falou com o (...), antes de morrer? Na noite em que ela morreu? Chamou o (...) e disse. Você pode chamar o padre, porque eu não estou passando bem. Aí, o (...) veio e ela perguntou, quanto que ela tinha que pagar a ele. Então ele respondeu que ela não tinha que pagar nada, que ele só queria que ela rezasse por sua família e para os clientes de Belo Horizonte, ela encheu os olhos de d’água, ela já sabia que ia morrer, não é? Lola foi alfabetizada em casa. Quando caiu, fez tratamento em Juiz de Fora, também com o Doutor (...), na época, era acadêmico. (...) foram criados por Lola. A varinha com a qual abria e fechava a porta do quarto ao toca-la na tramela, esta lisa de tanto ser usada. Quando ela mandou o (...) me chamar disse que o Padre ia me fazer uma surpresa, então mandou que o Padre (...) celebrasse uma missa para mim e quando entrei as lágrimas escorreram nos olhos dela, porque depois de 40 anos que fechou, eu voltava lá. Lola era amiga d’agente de mais, nunca foi fingida com ninguém; boa sempre sincera. A Cesarina irmã de Lola era madre Lúcia, morreu logo depois que a Dorvina morreu, era da Irmandade do Sarado Coração de Jesus. Lola só ia a missa comigo e com a (...), minha irmã. (...) meu sobrinho, na época da romaria, ficava na porta da casa, na porta do quarto quem ficava era eu. Ele é filho de (...)..
Rio Pomba (MG), 25 de novembro de 1999.